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O fim da escala 6x1 também é pauta climática e racial

há 5 dias
3 min de leitura

Em 16 de outubro de 2026, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional nº 141, originada da PEC 221/2019, que acaba com a escala 6x1. A emenda garante dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial, e reduz a jornada máxima em duas etapas: 42 horas semanais 60 dias após a publicação e 40 horas doze meses depois dessa primeira etapa.


A mudança costuma ser lida apenas como pauta trabalhista. Os dados mostram que ela também é pauta climática e racial.


Quem está nas jornadas mais longas

Em fevereiro de 2026, o Ipea publicou uma nota técnica sobre os efeitos da redução da jornada, com base na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2023, o registro dos vínculos formais de emprego mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Dos celetistas com jornada informada, 74% cumpriam 44 horas semanais, cerca de 31,8 milhões de pessoas. A remuneração média dos vínculos de 40 horas era de R$ 6.211. Quem trabalhava 44 horas recebia, em média, 42,3% desse valor.


O recorte racial segue o mesmo desenho. Pessoas brancas são 56% de quem tem jornada de 40 horas e cerca de 40% de quem tem jornada de 44 horas. A população negra é maioria justamente nas jornadas mais longas e mais mal pagas.


O tempo que não entra na jornada

A jornada contratada não inclui o trajeto. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 17% dos trabalhadores pretos levavam mais de uma hora para chegar ao trabalho, contra 10% dos brancos e 13% dos pardos. Na cidade do Rio de Janeiro, 29,8% dos trabalhadores levavam mais de uma hora.


Para quem sai da 6x1, a semana passa a ter uma ida e volta a menos. Para quem gasta mais de uma hora em cada trecho, são mais de duas horas devolvidas por semana, além das horas reduzidas na própria jornada.


Onde entra o clima

O transporte respondeu por aproximadamente 53% das emissões do setor de energia no Brasil em 2024, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. Um deslocamento a menos por semana muda o padrão de mobilidade de quem trabalha, com efeito potencial sobre essas emissões. O tamanho desse efeito depende de como cada pessoa se desloca e do que faz com o dia livre, e ainda precisa ser calculado.


É também um dia a menos sob o calor, no trajeto e em ocupações expostas a ele, como a construção civil. E é um dia a mais para descansar, cuidar da família e estudar. Para quem busca formação para os empregos verdes, tempo disponível é condição de acesso.


Medir por raça e território

O efeito do fim da 6x1 precisa ser medido por raça e território. Sem esse recorte, ele não aparece. As médias nacionais vão registrar a redução da jornada, mas não vão mostrar se o tempo devolvido chegou a quem mais se desloca, se a exposição ao calor caiu para quem trabalha ao ar livre ou se o dia livre virou acesso a estudo.


A implementação começa agora, com prazos definidos. É o momento de estabelecer a linha de base: tempo de deslocamento, uso do tempo livre e acesso a formação, desagregados por raça, gênero, renda e local de moradia. Sem ela, não será possível dizer, daqui a dois anos, quem de fato se beneficiou da mudança.


Fontes

Agência Senado. Senado aprova fim da escala 6x1. 14 de outubro de 2026.


Ipea. Nota técnica sobre os efeitos econômicos da redução da jornada de trabalho, com dados da Rais 2023. 10 de fevereiro de 2026.


IBGE. Censo Demográfico 2022: deslocamentos para trabalho e estudo. Resultados divulgados em outubro de 2025.


SEEG, Observatório do Clima. Emissões do setor de energia, 2024.



Sobre a Ambiafro

A Ambiafro é uma organização da sociedade civil brasileira, fundada em 2020, que integra equidade racial, clima e desenvolvimento sustentável. Já atendeu mais de 500 pessoas e concedeu 15 bolsas de pós-graduação para líderes negros em ESG e clima.


Dúvidas e outros assuntos: contato@ambiafro.com

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